Segunda-feira, 30 de Abril de 2007

Poesia e Crônica para minha avó Flora Lemos

 

Dona Flora

  

Dona Flora tem mais filhas que as ervilhas do Senhor
Verdadeiras maravilhas quanto à forma e quanto à cor
E elas brincam desde a aurora sob as mãos de Dona Flora.
 
 
São meninas caprichosas: Gordas, magras, altas, miúdas
Valem mais que muitas rosas... pois se vão deitando mudas!
Cada broto é uma outra aurora para o olhar de Dona Flora.
 
 
No solar das Laranjeiras nada nasce ou cresce ao acaso
Violetinhas, trepadeiras, cada planta tem seu vaso
Cada folha implora à aurora
- Dona Flora!  Ó Dona Flora!
 
 
Tatalantes, mil rolinhas vêm comer e vão-se embora
Tatalando em suas alminhas que um gatão segue e ... devora
Com uns olhões de pura aurora
Controlando a Dona Flora

 

 
Quando o sol, vermelho em bolhas desce o morro e a terra chora
Pelo orvalho que há nas folhas há o perfume e a paz de outrora
                                                    Que acalanta a noite e a aurora
No solar de Dona Flora.
 
 
   PAULO GOMIDE
 Publicado no livro:  Flamengo e outros poemas
de 1956
 
 
           
 
  
Crônica de Manoel Bandeira para Flora Lemos
FLORA
"A semana passada, eu estava me vestindo para sair, e já em cima da hora, quando Paulo Gomide me telefona, não para me comunicar um de seus estranhos poemas, acabado de fazer, como é às vezes o caso, mas me convidar a ver uma pedra.
- Uma pedra, Gomide?
- Sim, uma pedra com plantas.
A coisa era meio misteriosa, e o mistério decidiu-me. Fui.  Tratava-se de visitar uma senhora, moradora à Rua Soares Cabral, numa casa cujos fundos dão para uma aba de morro.  A pedra era esse morro.  Dessa pedra fez Dona Hermelinda Flora dos Santos Lemos um sono das Mil e uma noites, enchendo de plantas, construindo, em socalcos, estufas de ripado, que abrigam as mais belas e preciosas plantas do Brasil.  Muitas delas em flor, como as orquídeas, os antúrios, as violetas.  Mas no jardim de Dona Flora as flores passam quase despercebidas.  Para Dona Flora o que realmente contam são as plantas, e ela têm se batido para que nas exposições elas, que apenas costumam aparecer como humilde fundo ornamental, sejam apresentadas em igualdade de condições com as orgulhosas flores.
Dona Flora não é desses colecionadores ricos, que gozam o prazer de possuir plantas, deixando a mãos mercenárias o trabalho de as tratar.  O prazer de Dona Flora é cuidar ela mesma de suas plantas, e para isso se levanta todos os dias às 5 da manhã.  Aquelas plantinhas são todas como suas filhas.  Conhece-as uma por uma. 
- As plantas, disse-me ela, são caprichosas, teimosas.  Às vezes estranham ser mudadas para um metro de distância mais longe.
Sempre tive inveja de quem nasceu com vocação para alguma coisa.  Trabalhar naquilo para que se têm vocação é a grande felicidade.  Quem nasce com isso, nasce armado para suportar e vencer todos os contratempos, todas as agruras da vida.  Vocação para a pintura, como Portinari, vocação para a música como Villa Lobos,  vocação para as plantas como Dona Flora.
Desse paraisozinho  da Rua Soares Cabral trouxe para o meu apartamento da Avenida Beira-Mar uma criaturinha encantadora, de 7 centímetros de altura e 12 pétalas veludosas de um verde indefinível, uma cactácea,  "planta gorda", como é vulgarmente conhecida, para a qual os cientistas arranjaram um nome sesquipedantíssimo:  Kalanchoe tomentosa, vejam só!  Mas para mim ela será sempre, Gordinha, minha mais recente namorada.  Mais uma vez obrigado, Dona Flora.  Deus a abençoe e às suas plantinhas!"
MANUEL BANDEIRA
Do Livro Flauta de Papel de 1957

Publicado Por Sandra Lemos às 23:46
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Domingo, 29 de Abril de 2007

MUSA INSPIRADORA

Dona Flora

 

 

 

Quando eu terminei de fazer todas as listas intermináveis e preencher o meu perfil, pensei que enquanto eu ficava desejando um blog que falasse mais de artes em geral, de música ou de animais, do que propriamente de mim... Eu me dou conta de que essas coisas são fruto de toda uma vivência e educação que só pode vir de um lugar chamado "casa". Estamos intimamente ligados aos nossos familiares e estes nos passam seus "tesouros" culturais através dos anos, e assim é, mesmo que existam boas escolas na formação de uma pessoa. Na minha vida essas pessoas foram minha mãe, meu pai e minha avó... Mas é sobre Hermelinda Flora dos Santos Lemos, minha avó, que resolvi escrever nesse primeiro "contato", pois foi por sua causa que eu gosto tanto dos livros, das poesias, da música, dos animais, e sobretudo de se manter alegre sempre. Minha avó veio moçinha do interior da Bahia e veio morar no Rio, onde começou a trabalhar em lojas de roupas como atendente... Logo estava apaixonada pela moda, e resolvou começar a ser costureira e depois quando começou a crescer se trasnformou em "modista" como diziam naquela época. Casou com meu avô Luís que era dono das lojas A Colegial, e sua vida melhorou mais ainda... Ela então já uma pesquisadora de plantas apaixonada resolve começar a participar de exposições e competições que naquela época eram patrocidas pela Mesbla e pelo Jardim Botânico. Ela realmente começa a se destacar e a ganhar inúmeros prêmios, e logo está escrevendo em jornais e revistas sobre como cuidar de plantas e de orquídeas... Naquela anos de ouro, através de alguns amigos escritores conhece Manuel Bandeira que escreve uma crônica sobre ela e suas plantas e também o escritor Paulo Gomide que lhe dedicou um poema. Seu amor pelas plantas, pelos animais e pelo time do Flamengo eram enormes... Depois seguiu sua vida sempre cultivando plantas, mas já com mais idade abandonou as badalações... Ela foi realmente um exemplo de mulher(uma das primeiras a usar maiô duas peças e depois o biquini), de mãe, avó... Ela estava à frente de sua época, e eu pude conviver por algum tempo com ela, pois além de morarmos na mesma casa, ela faleceu somente quando eu já estava com 14 anos... Minha avó foi minha musa inspiradora.

Nana Lopes

 

 

                             

            

 

 

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